domingo, 19 de outubro de 2008

O outro cancro


Da empresa em que trabalho, e em especial no que toca a esta novidade na minha vida - uma doença cujo tratamento me limita -, só tenho bem a dizer. Uma boa razão para, também eu, querer dar o meu melhor. Mas, pensando bem, eu sempre fui assim. Tentar superar-me faz parte da minha forma de estar, senão na vida, certamente no trabalho. Quando ganhava mal, trabalhava muito; quando o banco me devolvia os cheques sem cobertura do meu vencimento, já o mês ia adiantado, continuava a não falhar. Quando por momentos fiquei desempregada, trabalhei de borla. A minha primeira baixa foi a de maternidade, ia já com 35 anos. E hoje, com a morte a querer seduzir-me, a minha maior preocupação é, de facto, que ela não me apanhe. Mas, nem agora, perdi o amor ao trabalho, assim como a gratidão de, nos dias de hoje, não me faltar um emprego. Passo o dia a ler as revistas que fazemos e as da concorrência, a responder a e-mails de colaboradores e leitores, a pensar em ideias novas, a preocupar-me com as vendas, com o futuro do nosso negócio e com os empregos da minha equipa.

Não quero, nem posso, dar lições de moral a ninguém mas... tenho um cancro, fiz um blogue, tenho opinião - e vou aproveitar. Recebo muitas mensagens, de amigos e conhecidos, que me relembram, com insistência, o prazer da vida. Conselho precioso. Mas sem trabalho, não há prazeres aos pontapés e, sem empenhamento, nos dias de hoje, pode muito bem não haver trabalho. Toda esta lenga-lenga porque soube hoje que um afamado empresário da nossa praça acredita que, em 2009, o desemprego possa chegar aos 12%! E porque cancros há muitos, seus palermas (como os chapéus), hoje eu sei o quanto eles podem destruir. Agarrem o que têm de bom: saúde e trabalho. E, se a primeira, e realmente mais importante, muitas vezes não estás nas nossas mãos, o segundo pode depender mais de nós do que somos capazes de imaginar.

Beijos e perdoem-me a lata.
T.

PS Qualquer dia já ninguém aqui vem, eu sei. Querem saber de mim e levam com chatices destas. Mas eu digo-vos: como sabem, eu continuo doente, ciente da gravidade da situação, e enquanto a vida me acolher entre os seus, vou persistir na luta. Portei-me bem e este ciclo foi generoso comigo. Amanhã vou trabalhar e, durante duas semanas, esquecer o mais possível este obstáculo. Há outros a que prestar atenção.

5 comentários:

ana disse...

Concordo em absoluto. O trabalho sempre foi para mim uma força motriz. Espanto-me sempre quando ouço alguém dizer que, se ganhasse o euromilhões, deixaria logo de trabalhar. Não encontro maior inimigo para a saúde física e mental do que a inactividade.

Ninia disse...

Gostei do teu post, e não tens que estar preocupada em teres tocado noutro assunto no teu blog. Estranho é que ainda não o tivesses feito. Não é fácil escrever todos os dias, da forma interessante e por vezes brilhante como tens feito, sem recorrer a outros temas que não ao do teu estado de saude.

Além disso, tu sempre pretenceste ao partido dos "achistas" (aqueles que acham sempre alguma coisa sobre qualquer tema, do qual eu também faço parte), e como tal, as tuas opiniões são bem vindas.

Anónimo disse...

Olá Teresa

Gostei imenso do teu post. Eu já estou farta de estar desempregada, para além do dinheiro que é importante, estar em casa não é fácil,detesto a inactividade, mas o mercado está péssimo.Não vou cruzar os braços, vou continuar a ir a todas as entrevistas, algo há--de aparecer.
Coninua sempre a escrever, terás sempre visitantes no teu blog. Eu serei uma delas.

Beijos da São

Fipas disse...

Que grande post! Muito bom! Beijo grande!

Marcela Forjaz disse...

Oi, Teresa. Fico satisfeita ( e não surpreendida, devo dizer) pela forma como está a aproveitar a doença para reequacionar as coisas, estabelecer prioridades, ...pela forma como está a ficar mais sábia. Vencer a doença vai ser uma vitória, mas maior vitória ainda é ter tirado esta "lição de vida" e passá-la aos outros. Parabéns!!!! ( vou passar a ser visitante deste blog ;) ) Marcela