sábado, 27 de março de 2010

Dar voz ao coração

Give voice to your heart, diz um belíssimo anúncio da Tiffany numa Vanity Fair. Virada ao contrário em cima da mesa, a mensagem, frase única da contracapa, persegue o meu olhar. Para onde quer que me vire, faz-se acompanhar. Não gosto de "frases", canso-me de dizer. Mas algumas, insolentes, impõem-se.  Como faz esta, que se aproveita da minha incerteza quanto à capacidade de expressão do meu coração.

Por razões meramente práticas, tenho vindo a descobrir que a doença não me amoleceu. Continuo com força para dar e vender. Mas, por razões especificamente tristes, descobri que a dita doença entorpeceu a minha antiga apurada capacidade para a desconfiança. Quando se considera apelar à fé divina, começa-se, naturalmente, por acreditar mais nas pessoas. Assim fiz. Ao meu redor, elas tornaram-se mais bonitas, doces, solidárias... fiz novas amizades, reapareceram amigos antigos, refizeram-se laços quebrados... a amizade tem sido uma fonte de alegria no meio do grande pesadelo que dura há ano e meio.

Mas... há sempre um mas, chegou o dia em que, de forma implacável, a beleza e doçura de alguns se quebrou em olhares odiosos e palavras maldosas. Afinal, o cancro pode mudar-me a mim, mas não muda os outros, aqueles que graças a Deus não têm mais com que se preocupar do que com as minudências das suas vidas, que podiam ser felizes se eles quisessem. Mesmo que me pareça óbvio que a proximidade a pessoas que, como eu, lutam para viver, deveria abrir os olhos a muita gente (pelo menos na avaliação da importâncias das coisas), isso, de facto, não acontece.

E pronto, na vida real, todos sabemos do que os outros são capazes... A inveja, o ciúme, a maldade, a incapacidade de se ver um metro além do umbigo não melhora nos outros só porque eu estou seriamente doente. E, porque tenho de voltar a viver em sociedade, fora da minha redoma do amor ao próximo que o cancro me proporciona, tive de voltar a usar os meus óculos da desconfiança. Não devem dar saúde nenhuma, mas pelo menos garantem que, enquanto luto contra uma doença mortal, não me vou daqui ainda mais cedo com uma facada nas costas.

As minhas desculpas a todos vós, queridos amigos, que encontraram aqui hoje palavras tão tristes, tão longe daquilo que temos vindo a construir e que queremos para nós. Mas vingou o apelo do anúncio da revista: dei voz ao meu coração.

Beijinhos,
T.

16 comentários:

Madalena disse...

Querida Teresa, li e reli. Para entender melhor, por um lado. Porque está lindo de doer, por outro. Já hoje me tinha acontecido o mesmo com o texto do MEC no Público. Também li duas vezes, pelas mesmas razões.
Se bem entendi, tu sentiste que o teu "problema" foi muito transitório para os outros. Os outros "curam-se" e nós continuamos às voltas com o murro que levámos.
Não acho que as tuas palavras sejam tristes, Teresa. São fortes! Isso sim. Mil beijinhos.
Se quiseres ler o MEC, diz que eu faço-te chegar. A mulher dele, a Maria João também anda às voltas com o malvado, com a quimio e com a radioterapia.

maguie disse...

Olha sempre em frente amiga, não olhes para tras nem para os lados.....
Beijinhos
..

Anónimo disse...

Sinto quase o mesmo Teresa. Como se o simples mas carinhoso olhar que lançamos à nossa volta, fosse realmente mudar aquelas pessoas, aquelas que são e foram sempre mais mesquinhas mas, a quem a nossa experiência dolorosa nos dita que as olhemos novamente...duma forma mais benévola. Triste engano...para elas nada mudou. Abriram tréguas algures, mas por pouco tempo. Para elas nós já estamos bem, curadas, logo prontas para a luta, aquela luta que é só delas...já não é nossa!! Nunca mais o será, por opção, consciente e profundamente convicta! Mas....enquanto o não perceberem, vão lançar dardos que....vão "resvalar" na couraça do meu novo mundo!
Um beijinho grande (estava com saudades dessa Teresa, com partilhas destas, muito eloquentes e...sempre bem escritas)
TeresaM

beatriz disse...

OLá Teresa,
Lindo e verdadeiro texto. As pessoas não mudam...mas em momentos de muita dor ou muita alegria descobrimos coisas que umas vezes ainda nos magoam mais e outras atenuam a nossa dor... é a vida...mas, falo por mim, a minha capacidade de perdoar está mais enfraquecida... mas a de não esquecer o bem que me fazem está muito mais fortalecida! o que eu ainda não consegui foi não me consumir com pessoas que eu pensava que estariam comigo e não estiveram! Um beijo grande

Nela disse...

Teresa, percebo perfeitamente este texto! Tem muita verdade na descrição e na dor, mas só quero deixar uma frase:
Sê a paz que queres ver no mundo... (mesmo que à volta reine o caos...).
Beijinhos

Natália disse...

Olá Teresa
Como te disse um dia destes,não vale a pena amiga.
Pensa nisto que escreveste
(A amizade tem sido uma fonte de alegria que dura há ano e meio)
E assim vai continuar,estamos aqui e quero-te ver no próximo encontro.
Beijinhos

Janine disse...

Querida Teresa...
Sinceras, frontais, duras (porque tiveram mesmo que ser)...assim foram as palavras neste texto... Mas, sobretudo, são palavras de uma pessoa honesta consigo própria e com os outros, de uma pessoa que não se resigna perante a doença e perante os outros, de alguém que sabe bem do que fala...
Que continue essa redoma maravilhosa de amor e de amizade, porque é nessa redoma que reina a esperança sincera, o companheirismo e todas as coisas boas do mundo...
Os tais outros...deixemo-los na mesquinhez, no egoísmo, à procura do umbigo... E tenhamos pena... Pena por nunca sentirem Aquela Felicidade, Aquela Amizade, Aquele Amor que faz da TeresaP uma pessoa tão especial e ... Verdadeira Pessoa!!!
Beijo enorme

Graça disse...

Pois é... Teresinha, é o mundo de cão em que vivemos, cada vez mais sem valores, cada um olha para o seu próprio umbigo e pouco mais. também sinto muitas vezes essa revolta.
quando nos viam com ar debilitado, olhavam-nos assim como umas "coitadas!!", ou evitavam-nos, agora que nos vêm até com bom aspecto, nem acreditam que o que passamos foi assim tão mau, como falamos, aos seus olhos estamos prontas para aguentar tudo e mais alguma coisa, não é bem assim!!. Essas pessoas não fazem a miníma ideia do que nos vai cá dentro!! só mesmo quando sentirem na própria "pele".
Mas temos que nos mostrar firmes, estamos doentes, mas não somos "parolas" nem perdemos a nossa dignidade.
beijinhos grandes prima

Teresa disse...

É incrível como sentimos a uma só voz. Obrigada por existirem e por estarmos juntas.
Um beijo muito grande,
T.

Fipas disse...

Parece que está tudo dito...

Lindo texto. Nem tudo o que é bem escrito tem que ser sobre coisas alegres. Normalmente é sobre o que se sente. Foi o que sentiste.

Acho que deves sempre acreditar em ti e na tua mudança para melhor e isso sente-se no coração. Mesmo que te magoes, quiçá talvez mais pois estás mais sensível, as recompensas de amor e amizade, até mesmo a tua felicidade interior, são tão maiores, que só pode dar força para continuar e ser mais forte. É triste e é duro, calculo que tenhas sofrido uma desilusão, mas de facto há pessoas que não vêm o mundo da mesma maneira, por muito que nos choque nem se apercebem da sua dávida e nem o apreciam tão pouco, mas quem perde é quem não vê, quem não sente...
Se não lidássemos com a desilusão como reconheceríamos a felicidade?
Não é fácil, mas é tão melhor ter um coração bom... E ca está o teu.
Força e beijnhos
Boa semana!

Cidália disse...

Escreves sp tão bem!
Só te queria deixar um beijinho.
Procura a paz e alegria. Não deixes que essas "pedras" bloqueiem o teu caminho.
Beijos Grandes
Fica bem
Cidália

Anónimo disse...

Quando eu chegar de férias diz-me quem são que eu vou lá e dou-lhes com o rolo da massa!
:D

Beijos, para o ambiente melhorar um pouco.

Peter pan

Anónimo disse...

Márcia diz;

Como sempre essas "esas" sabem bem se expressar,e,nisto tudo muitas de nós nos encaixamos.
Eu não consigo escrever bonito assim,e,me irrito por não conseguir.
Mas o que importa é que está lutando...e com bravura.
E estamos todas aqui,numa bonita e sincera amizade!
beijinss...de quem não consegue tirar nada de bonito da carola...snif

Natália disse...

Bom dia Lindona
Estás mais bem disposta?
Beijinhos

Anónimo disse...

Passei por aqui de novo. Adorei o texto. Aparentemente, voce agora so' tem tempo para a essencia. A sua Alma deve estar com pressa. A minha minha tambem. Te amo, maria

Anónimo disse...

Olá Teresa, Já está tudo dito e bem em relação ao que escreves-te.
Isto é mesmo um mundo cão, mas os Amigos verdadeiros estão sempre aí para nos ajudar,e esses sim é que são importantes.Aqueles que choram quando tu estás triste e que riem quando estás alegre. Ainda há alguns e é com esses que tu podes sempre contar. Os outros borrifa-te para eles.
Beijos muito grandes.
São