terça-feira, 30 de setembro de 2008

Pormenores


Separar o essencial do acessório não é tarefa fácil para quase ninguém. Nem, infelizmente, quando o que está em causa é a saúde de cada um de nós.

Como é meu dever, e penso que de elementar justiça, tento ao máximo não me culpabilizar pelo que me está a acontecer. Toda a gente conhece histórias de quem não fuma e tem cancro no pulmão, de quem leva um vida sadia e sofre um ataque cardíaco, enfim, de injustiças da vida no que toca, entre outras coisas, à saúde. Mas... não me esqueço de toda a porcaria que comi durante décadas, sem nunca me preocupar mais do que com a parte estética dos quilos em excesso (e nem isso acabou por ser relevante), do sedentarismo em que vivi nos últimos anos, das brutais cargas de stresse a que me sujeitei no trabalho, da angústia que sofri nas mil e uma noites em que cheguei a casa e a Joana já estava a dormir e, ainda mais importante, dos sinais do corpo que ignorei.

E é aqui que começa a minha missão: sem vos massacrar, fazer com que este acontecimento na minha vida se revele, de alguma forma, uma mais valia nas vossas. E tudo começa na atenção aos pormenores. É acessório não ligar a uma dor de cabeça, é essencial ligar à ocorrência de muitas.

Quando, há pouco mais de ano e meio, comecei a ter muitas aftas na boca e garganta, fui às urgências na CUF e o otorrino que me atendeu, pela segunda vez, aliás, disse-me uma frase cuja importância vocês, caros ouvintes, atestarão: "Na garganta você não tem nada, mas faça uma mamografia que, por estranho que lhe pareça, estas coisas às vezes são da mama". Fiz a mamografia, sim, um ano depois disto. É verdade que não apanhou nada, mas têm também de conhecer o segundo conselho deste médico: "Mas faça uma mamografia personalizada, não dessas em série, que não são tão cuidadas". Até me deu um contacto de uma médica que, no seu entender, seria a melhor. Não o fiz. Ao contrário do que ele me disse, fui à CUF e fiz uma "em série". Muitas mulheres na sala de espera, tudo marcado para a mesma hora, uma despe-se, outra faz, outra sai, enquanto lá fora já há quem parta com o relatório do médico, elaborado na hora. Podia até ter sido suficiente para detectar o tumor que eu por certo já tinha nessa altura, mas a verdade é que... não foi. E fica a triste sensação de não se ter feito tudo ao nosso alcance.

Agora, parem, escutem, olhem e passem com cuidado. Sem dramas, mas com cuidado.

Beijocas a todos.
T.

9 comentários:

Anónimo disse...

Notável texto, parabéns!
A.

Anónimo disse...

Não que me surpreendes pela forma como pensas, mas é de facto notável a maneira como fazes as coisas.
Obrigada pelas tuas palavras, de facto tão certas.
Amo-te e tu sabes, e eu também sei...
beijos mana, desculpa mas és mesmo a MAIOR!
m

Anónimo disse...

Minha querida, se issso te pode servir de consolo, é facto que grande parte dos tumores da mama que são detectados precocemente podem ser curados, enquanto há outros tão beras que o diagnóstico precoce é impossível e não ajuda tanto assim. Não há lugar a culpas mas sim a coragem de luta e essa não te falta mesmo...
"Achei" o teu blogue e vou lendo com muita alegria e optimismo; foi só na tua doença que eu te vim a conhecer melhor, ou a reencontrar, mas sinto-me muito mais próximo do que nunca
Acho que o teu blogue devia ser mais divulgado pelas mulheres com a mesma doença, mas não sei se tu gostarias?
Não precisaste de mim para nada nestas andanças médicas, mas aqui estou; se precisares, maila-me para ftorrinha@netcabo.pt
Bjs N.

beatriz disse...

Obrigada Teresa...

Sandra disse...

querida directora. Continuas a ser a maior. A par do que passas ainda tentas ajudar os outros e esforças-te para nos alertar destes tropeções da vida. Obrigada.
Fiquei surpreendida com a foto de segunda. Confesso que apanhei um susto. Três "monstrinhos" ali a olhar para mim enquanto lia a tua mensagem. Beijos muitos grandes. É muito bom ter-te ao pé de nós. Ah, adorei saber que descobriste os prazeres da culinária. Não fiques com as receitas só para ti.... quero saber dessas iguarias que agora fazes no tal wok. xau xau, até amanhã, até amanhã (esta é uma despedida à la Francisca)

Anónimo disse...

Obrigada por hoje me teres ido buscar ao aeroporto antes das nove da manhã.
Para os outros leitores: ontem cometi a imprudência de sair de Hennigsdorf (só) duas horas antes do vôo, mas fiquei parada num trânsito impossível, daqueles que só se conhecem em Lisboa quando chove. Por isso perdi o avião, e vim hoje via Bruxelas.

Tinha uma certa ansiadade porque ainda não te tinha visto (ao vivo) depois do dignóstico.
No entanto, não há razão o meu nervosismo. Estás super, certamente mais magra, mas isso é da cura e não da doença.

A forma com que estás a lidar com tudo isto é admirável. E ainda tens tempo para me apoiares nas minhas maluqueiras.

Obrigada por seres minha amiga. Há muitos anos que és o meu pilar.

Ninia disse...

Esqueci-me de assinar.

Fipas disse...

Belo texto e um alerta importantíssimo! Obrigada!

Aqui te deixo a informação que falámos sobre as sementes de linhaça. Podes visitar este site que é fruto do trabalho do Dr. PNV:

http://static.publico.clix.pt/pesoemedida/ficha.aspx?id=1326786

e este que encontrei que é o que tem informação mais detalhada em termos dos benefícios das sementes para a saúde:

http://www.segs.com.br/linhaca.htm

Eu normalmente ponho uma colher de sopa, na sopa, quando como sopa em casa.

Beijinhos!

Marisa disse...

Espectacular este texto!
De facto, é preciso ter coragem para ser assim. Parabéns por ser como é Teresa!

Beijoca grande
Marisa Carvalho