terça-feira, 14 de outubro de 2008

É para a SIC?


Já está, saiu mais uma dose de cura para a cadeira do canto, mesmo ao pé da porta, que um dia, espero, há-de ser a de saída. Repete-se o ciclo, repete-se a história na sala de quimioterapia: um serviço óptimo, com pessoal do mais querido e profissional que já vi, irrepreensível. Saibam você, infelizes utentes de um SNS esgotado, que há outro, em que o estado é generoso e afável. Em que, além do pessoal bem escolhido, até oferece uma sandes de queijo, um iogurte, ou mesmo umas bolachas a quem vai para ali cheio de fome, como uma moçoila que vocês conhecem, a quem nem uma sessão de quimio tira o apetite. O guloso do assistente-chefe também estava esganado, mas limitou-se a ver-me comer, sem direito a uma migalha. Era o pãozinho dos doentes... Ele não se atreveu nem a pedir uma dentadinha.
Para barraca chegou a das fotografias. No meio de tanta gente doente, estou eu ali a posar para a máquina... Enfim, ossos do ofício, tenho uma data de gente para entreter no meu blogue. "É para a SIC?", brincou uma enfermeira. Cada um tem o público que merece, e o meu tem de ser bem tratado em qualquer horário, mesmo que para isso tenha de fazer algumas figuras parvas, como esta.


(o assistente-chefe cheio de fome, sem direito à sandezinha)



O tratamento foi igual ao primeiro. Ali não custa, o pior vem depois. Até agora sinto-me bem, por isso também aproveito para escrever mais cedo. Amanhã chega a equipa de enfermagem e higiene, o trabalho fica aligeirado por aqui. Enquanto uma limpa, a outra cozinha e, além da casa a brihar, posso ainda consolar o corpinho nauseado com a mais fantástica canja de galinha do universo, a da dona Elisa. E a Joana fica contente com a avó e a bivó cá em casa, para quem se vai fartar de escrever e fazer desenhos. "O ovo é da Ana" ou "É o pai da Joana" são frases que se repetem em papéis espalhados pela casa. "A pá é do pai" também faz parte do repertório desta jovem entusiasta do seu novo mundo das letras.

Neste momento, cá em casa, estamos todos no primeiro ano. A Joana na escola, eu no desta luta, o Júnior no papel de assistente-chefe, um momento de aprendizagem fundamental para toda a família. Se Deus quiser, este percurso a três ainda será longo e, como todo o saber, proveitoso. Só temos de, tal como a Joana, querer aprender bem a lição.

Beijinhos.

PS - Obrigada pelas vossas mensagens inspiradoras. São essas, e outras, que me trazem aqui diariamente. Qualquer dia já não sei o que dizer. Espero que a minha longevidade esgote a minha criatividade...

PS2 - Atenção ao pormenor do medicamento vermelho. Podem clicar na foto e ver melhor. É este bendito malvado que faz cair o cabelo (e fazer chichi colorido)...


T.

12 comentários:

Ninia disse...

Mais um post fabuloso. Sei que um dia estes escritos vão ser publicados em livro. Até os PS são super bem tirados.

Eu sei que estes elogios vindos de uma pessoa com formação técnica podem não parecer grande coisa mas, após tantos anos de convívio com a comunidade jornalistica e de milhares de frases lidas, terei o nível adequado para fazer um julgamento. (viste como consegui escrever uma frase tão longa?)

Fipas disse...

Os teus escritos são inspiradores de facto! Aprendemos nós contigo também. Apesar de também não ser muito dessas terapias de grupo, nunca se sabe se num desses grupos poderás encontrar aquele indivíduo que te possa corresponder, mais ao teu estilo. Também como tu, poderá estar alguém do outro lado com a mesma maneira de pensar. Sabe bem falar com quem passa por uma situação comum, que sabe o que estás a pensar/ sentir. Em todo o caso procura algo que te faça sentir confortável e que preencha as tuas necessidades, seja um especialista ou um psi-grupo. Seja em que circunstância for, os teus amigos são de facto os teus melhores ouvintes (e agora leitores), os teus maiores apoiantes e... Estamos cá. Sempre :)

Fipas disse...

PS: Não te esqueças da força que dá dizer asneiras!!! ahahah!

Anónimo disse...

Olá.
Relativamente ao teu post sobre terapias em grupo ou isoladas, queria-te dizer que tenho uma amiga muito querida (Maria João, mais uma!!!)que acabou de passar pelo que estás a passar (quimios, análises e afins). Aliás, ainda está de baixa, com quem (na minha humilde opinião)podias trocar umas ideias sobre o assunto. A minha irmã conhece-a, uma cabeça arejada, com um grande sentido de humor, que encara tudo com uma grande "tranquilidade" mas muito racionalmente.
Um beijo grande
Lígia

Ninia disse...

Confirmo. A Maria João é um tratado. Grande espirito.

Anónimo disse...

esta minha irmã é uma coisa... do outro mundo!!!
É minha!!!!!!
Beijos boneca, amanhã lá te levo a equipa...
mais beijos
mana

Clara Azevedo disse...

Perdi uma oportunidade de ouro de ir ver como são as sandes da quimio. Apaguei agora mesmo a frase que tinha escrito a seguir porque me dei conta que parecia que não costumo trabalhar nada. Isto para dizer que esta terça-feira me esqueci que podias estar na poltrona a curtir a trip! Mas felizmente estava lá a SIC e fiquei a par de tudo. Foi melhor assim, porque eu nunca tenho tempo para comer nada de jeito no Hospital, e ía-me custar imenso ver e cheirar a tua sandocha.

Ligia disse...

Obrigada por nos manteres informada.Mais um e já está.Força amiguinha mil beijos da tua macaca. Eu concordo com a tua amiga que diz que dizer asneirolas ajuda.Mas tem que ser daquelas gordas. Nada de cocos, pilinhas ou pipis. Porra e merda também não chega. Tem que ser mesmo das pesadas. Jocas godas. Doru tu tudo

ana disse...

Adorei 'reencontrar-te' ao fim de todos estes anos. Se por fora estás igual, por dentro estás melhor: aquela adolescente forte e cheia de sentido de humor, agora temperada a aço pelas coisas que a vida lhe vai atirando. Fico freguesa fiel do blog! Um graaaaande abraço.

Susana disse...

Epá, agora fiquei mesmo curiosa com essas famosas sandes! Apesar de não escrever muitos comentários, sou assídua leitora do teu blog, não pares de escrever! Um beijo, susana

Anónimo disse...

Querida directora, saudades e força. Quinta-feira terei notícias para ti sobre o apoio psicológico. Exclusivo. Só teu. Como tu mereces. xau-xau, até amanhã, até amanhã
ps - hoje tou mto contente. O M e a R deixaram-me gastar dinheirinho. eheheheh

Anónimo disse...

"Estava a fazer quimioterapia e falava com o cancro: 'Morre, morre, morre'. Insultava-o. Enquanto na guerra o inimigo está fora e pode matá-lo, aquilo está dentro de si. É uma parte sua que se revolta e a quer destruir"

António Lobo Antunes (numa fabulosa entrevista à Pública, do último domingo)
Beijos
Sónia