quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Elogio da ignorância

Nem parece meu, eu sei, nem de qualquer pessoa que se preze de ter o mínimo de inteligência e curiosidade (já para não falar em espírito científico que, como bem se sabe, no meu caso, roça o quase zero), mas... não quero saber muito sobre o cancro. Melhor: não consigo perceber muito sobre o cancro. Resumindo: não consigo nem quero conseguir.
As pessoas perguntam-me coisas que eu não sei e, surpresa das surpresas, isso também não faz com que passe a ter vontade de sabê-las. Apesar de perceber claramente que as pessoas acham estranho que eu não saiba (nem queira saber) as respostas ao que me perguntam.

Ao fim de quatro meses com a doença diagnosticada apercebi-me da sua imprevisibilidade. A uns acontece isto, a outros aquilo, toda a gente conhece histórias muito dramáticas e outras de enorme sucesso. Com total certeza, só se sabe que é potencialmente mortal, que é perigosa, mas ninguém me sabe dizer quando morro e essa é a única coisa que me preocupa. Ou talvez nem isso, se a verdade for demasiado dura. Então, que mais me pode interessar?

A minha amiga F., que me segue as pisadas nos tratamentos (vai agora começar a quimioterapia), faz-me muitas perguntas. Eu queria responder, ajudar, mas... não sei. Só sei o que senti, mas nem isso significa que seja o mesmo que ela vai sentir. Durante a quimioterapia as pessoas têm sensações diferentes, porque fazem medicações diferentes, porque têm organismos diferentes, porque isto, porque aquilo... E ela, coitada (tenho pena da sua extrema curiosidade), quer saber tudo. Pesquisa, pergunta, questiona... Eu não... Eu só quero saber o que vou fazer amanhã, e é se me quiserem explicar, senão logo se vê quando lá chegar. E acho que também já não me chateio de esperar horas em salas de espera....

Este elogio à ignorância, de que não sei bem porquê sinto um certo orgulho (deve ser estupidez pura), só é possível porque confio plenamente na minha médica e faço tudo o que ela me manda. Perceba ou não. Já lhe perguntei quando vou morrer e ela diz que não sabe. Eu acredito que ela não saiba e fico contente, não deve ser para já, senão ela saberia, não é?

Assim sendo, peço desculpa às pessoas que me perguntam aquilo que não sei, que deveria saber, mas que não consigo nem quero.

Beijos,T.

11 comentários:

Ninia disse...

Não é muito da minha natureza fazer elogios ao "Elogio da Ignorância", mas este texto está brilhante.
T., se não queres saber não saibas, se não queres falar não fales, se não queres trabalhar não trabalhes. Se alguma coisa que ganhaste com esta história, foi a liberdade de fazer o que bem te apetece.

Anónimo disse...

Adorei o teu post, aliás como todos os outros. Escreves lindamente.
Vive um dia de cada vez e faz o que te apetecer, e amanhã logo se vê. è isso amiga. Continua é com a tua força e boa disposição que isso é muito importante para a tua sanidade mental.

Beijos grandes

São

Anónimo disse...

És tão linda!!!
É assim mesmo, mas faz MESMO TUDO o que a médica te manda...
O resto estou com a João, é que te der na telha, o que te apetecer... aliás toda a gente devia fazer isso... eu tento, mas infelizmente ainda não encontrei o pote... e então ainda faço muita coisa que não gostaria,mas a vida é mesmo assim...
Como eu te compreendo, sim tenho a certeza que ela não sabe, e que sim, vais ficar cá muitos anos!!
Beijos grandes mana Grande
luv u:)))
m

beatriz disse...

Tu é que tens razão e sabedoria! como dizem os AA "um dia de cada vez" e "o que não está na tua mão... entrega!"... a Deus, aos médicos... és sábia, continua assim.
Um beijo e obrigada pelo texto

P.S. nem pelo gmail consigo mandar o filme, recebeste as fotos?

ana disse...

O que mais me agrada em ti é essa capacidade de auto-análise, essa capacidade de racionalizar o turbilhão de coisas que te passa pela cabeça neste período tão conturbado. Não sou médica, mas acredito que é uma ferramenta muito útil no processo de cura.

PS - Obrigada pelo teu cuidado. Estou bem, mas tenho tido muitos problemas de saúde na geração mais velhota da família, e, como sempre, ando preocupada com a minha amiga Tânia.

Anónimo disse...

Parabéns T.
Isso não é ignorância, é sabedoria.
Nem eu nem ninguém sabe quando morreremos, e essa semelhança iguala-nos na diferença da tua doença.
Um dia de cada vez, mas cheio, cheinho só de tudo o que for bom para nós e para quem queremos bem.
Um beijo T.

Sininho

ER

Anónimo disse...

Um beijo grande amor,para ti e para a Jo
nina

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Anónimo disse...

Tenho a certeza que assim seremos muito mais felizes.

Beijos
Peter Pan

Anónimo disse...

Então óh preguiçosa?!!
vai mas é trabalhar... :)))
m

Susana disse...

Então não há novidades?! Susana