domingo, 20 de setembro de 2009

Culpas sem desculpas

Durante muito tempo culpei-me pela doença. Porque comi demais, porque dormi de menos, porque trabalhei demais, porque estive com a minha filha de menos, porque dediquei-me pouco a mim e à minha saúde, porque isto, porque aquilo...
Depois, culpei-me porque não conseguia estar tão feliz e optimista como me diziam que tinha de ser para a doença não vingar. Pensava que ia morrer porque estava triste e inconformada com esta partida da vida.
Culpo-me porque não tive filhos mais cedo e agora posso estar e morrer e deixo uma criança tão pequena sem mãe. Culpo-me porque não consigo emagrecer (continuo a engordar, está a tornar-se impossível conviver com este corpo). Culpo-me porque não me apetece sair à rua. Culpo-me porque tenho a casa desarrumada, porque detesto as três perucas que tenho, porque ando a ler pouco, porque ainda não vi os filmes do Tarantino e do Almodovar, porque não tomo o lexotan quando ando enervada, porque não vou ver a aula de natação da Joana (ela já me pediu várias vezes), porque isto e porque aquilo.
Agora podia começar o rol das desculpas, mas culpo-me por dar desculpas, por dar secas às pessoas sobre como me sinto, por não querer falar com algumas pessoas que são boas para mim, por não aguentar tantas perguntas que me fazem, por não ter mais paciência para pessoas que me amam muito, por detestar falar ao telefone, nunca saber onde tenho o telemóvel e não atender milhões de chamadas que me fazem, por não aprender a maquilhar-me (e andar sempre com cara de morta-viva, já para não falar das borbulhas que não me largam), por isto e por aquilo.
Não sei como rematar este texto, mas não tenho culpa e vai acabar aqui mesmo.
Beijos,
T.

8 comentários:

Anónimo disse...

If guilt was the teacher, LOVE would be the lesson. Com benquerer, maria

Madalena disse...

E todos os que te adoram entendem isso e todos se sentiriam como tu te sentes agora se estivessem a passar pelo mesmo, Teresa! Eu não sou psicóloga (um aluno meu acha que sim!) mas parece-me que estás mesmo no meio da tempestade tudo o que podes fazer e fazes bem é arranjar forças para sobreviver e chegar ao lado da bonança. Vamos chegar Teresa. Vamos chegar! Eu digo vamos porque também sinto-me permanentemente atingida por balas de culpa que me deixam marcas que eu agora julgo incuráveis. Culpo.me pelo Jorge, pelos rapazes, pelos netos que ainda não chegaram, pela mãe, pela sogra, pela madrasta, pelas irmãs de coração que são tão importantes nesta luta.... Vamos, Teresa! Upa, como diz o meu médico quando me manda levantar da marquesa. Upa!!!!! Mil beijinhos!!!! Sem culpa! As tuas fotos mostram uma Teresa bem gira e eu sei que és. Desculpa se disse alguma coisa que não devia.
(Estou podre com a Farmville. Não arranca!!!!! lol)
Beijinhos

Anónimo disse...

A culpa não existe e não interessa mesmo para nada... o que interessa é seres capaz de fazer aquilo que realmente queres e precisas... eu também sou perseguida por essa senhora, embora tente não lhe dar muita importância... mas ela é mesmo chata e persistente...
Dá-te o teu tempo, relaxa, respira... não queiras encontrar culpados porque somos todos e não é ninguém... a culpa é mais uma coisa para atrapalhar, e não interessa mesmo nada...
Precisas de tempo, de descansar... se calhar parar mesmo...
Beijos muito grandes mana Grande
m

Ninia disse...

T., ninguém tem culpa. E muito menos tu. Pela parte que nos toca, nunca mas nunca podes pensar que estás a dar seca ou isto ou aquilo.
E estás com muito melhor aspecto do que pensas e do que escreves.

Anónimo disse...

pois estás!!!
m

TeresaM disse...

Engraçado..que hoje tenhas escrito isto... e eu fui o tempo todo da viagem a culpar-me por não ser mais eficiente na organização, porque de certeza vão faltar coisas à minha filha porque eu não sei gerir estas situações, porque as amigas são sempre melhores donas de casa, porque certamente teriam feito tudo diferente, porque eu gostava de receber tão bem como essas mesmas amigas, porque a casa delas está sempre mais bonita, cheirosa, limpa, organizada, porque...porque..
Depois, para rematar a simultaneidade de "estados", quando acabei as arrumações, fui ao quarto de banho e deixei a porta entreaberta, dando hipóteses a um espelho na parede em frente me revelar que...horror dos horrores estou carregada de celulite, gorda! Gaiiiiiiiita!!!!
Saímos de lá e fomos "ensinar" a farense a ir para a faculdade (é perto) e a vir ao Algarve de comboio, tipo passeio guiado entre a residência universitária e todos estes locais. Demos de caras com uns amigos que não via há pelo menos 2 ou 3 anos! ela estava bem mais gorda, bem mais matrona e como demos uns dedos de conversa ela acabou por saber que eu tive e tenho o que sabem! Ora, ela já me tinha dito: Teeeresaaaaaa tás na mesma!!! Ou seja, achamo-nos piores do que os outros nos vêm e o meu marido disse-me depois: tás mais gordinha, sim...mas eu gosto: tenho mais de ti!!!! e estás com boa cara, laroca e eu gosto!
É que tu, Teresa, estás apenas em vésperas de mais quimio...mas lembra-te: foi assim tão má (comparada com as anteriores) esta última????
Um beijinho

Fipas disse...

Acho que todos nós a certa altura da vida sentimos isso... Eu sinto isso e essa são crises complicadas de gerir, ainda mais para ti e ainda mais porque nos parecem completamente estúpidas, mas não são... Dá-te espaço e tempo, "perdoa-te" por esses que são as pequenas falhas do dia-a-dia que te parecem não serem perfeitas, pensa que o importante é que estejas bem e começa a mudar o que não gostas nas pequenas coisas. Passo a passo vai-se lá e uma viagem de mil milhas começa no primeiro passo... As pressões sociais e o telemóvel são por vezes sufocantes. Quem te conhece sabe que quando quiseres, quando te sentires bem ligas de novo e se não ligares não tem problema! Há que respeitar esse espaço, que é teu. Louvo a tua transparência e a tua escrita, por vezes sinto tudo isto por vezes e nem consigo explicar muito bem..ora aqui está! Estamos aqui, quando quiseres e te apetecer! :)

Anónimo disse...

Eu nunca fiz nada e estou sempre cheio de culpa (Woody Allen). Acontece aos judeus como ele, mas também aos que , como eu, foram educados demasiado perto do catolicismo e dos jesuítas. E não só, claro.

Basicamente é uma merda, andar sempre com a culpa atrás, embora nos faça ser mais bem comportados e aqui e ali mais bem sucedidos. Mas o peso é insuportável.

É interessante pensar que são tudo substâncias químicas, se as alterarmos com certas drogas ou alcool por exemplo, podemos ficar sem culpa, temporariamente...!

No fundo odeio a culpa mas não sei o que eu teria sido sem ela. Provavelmente mais descontraído e mais feliz - whatever that means.

Beijos querida, vou sempre visitando a tua conversa.
Nicha T