quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Quatro da manhã, hey!

Tem sido um padrão, talvez mesmo o único além das náuseas, destes seis ciclos de quimioterapia: acordar por volta das 4 da manhã. Não sei de todo o que isto significa, se é que significa alguma coisa, mas, na primeira noite a seguir ao tratamento, aconteceu sempre. E hoje, cá estou eu ao computador, rendida à evidência de que não vou dormir mais esta noite. Já estive a ler, já aconcheguei o estômago, agora estou aqui a escrever-vos e, de seguida, volto ao meu livro - o primorosamente bem escrito mas um tanto deprimente, O fantasma sai de cena, de Philip Roth, um escritor americano que, depois de muitas distinções, diz-se que se julga merecedor do Nobel - que talvez ainda termine antes do amanhecer.

Sobre a quimio de ontem, nada de novo a dizer. É a última deste tratamento, mas não é certo que não tenha mais pela frente, de outro tipo de medicação. Vou, entretanto, fazer exames médicos e, daqui a menos de um mês, com os resultados na mão, a minha médica decidirá o passo seguinte. Estou nas mãos dela, também um pouco nas minhas e nas vossas e principalmente nas do destino, que sinto que me vigia atentamente. O que terá em plano para mim?

Hoje, quarta-feira, é o dia em que a minha amiga F. se me adianta, e faz a sua cirurgia de remoção do seu tumor. Desejo-lhe muito sucesso nesta intervenção, já que ânimo, ao que parece, não lhe falta. Temos de acreditar que vai tudo correr bem, é o único caminho possível para recuperação, ainda que, quem pense demais, como me acontece a mim, não consiga sempre manter esse padrão de certeza. Eu, que sempre fui uma escrava das emoções (e ainda sou e serei), ando agora subjugada ao meu lado racional, cada vez mais poderoso. "Tenho uma sensação habitual de que a minha vida real passou e de que estou a viver uma existência póstuma" (John Keats).

Beijos,
T.

8 comentários:

ana disse...

Mas essa frase do Keats é apenas racional na aparência. Olha à tua volta: tudo te mostra que a tua vida não passou e que a tua existência nada tem de póstuma. Abraços apertados.

Ninia disse...

Concordo plenamente com a amiga Ana (que ainda não conheço). Eu não diria ou escreviria melhor.

Mas não penses que não te percebo amiga T. Sentes a vida em suspenso, estás ansiosa e assustada. Mas será que a vida de todos nós não é exactamente assim? A tua vantagem, talvez única, é que tens uma muito boa desculpa para pensares a vida doutra forma, com outros olhos e com outra sensibilidade. Imagina o que será depois de te curares: uma mulher ainda jovem com tanta sabedoria emocional. E que isso seja a tua motivação.
Para os outros, para nós, a vida não passa de uma imensa repetição.

Anónimo disse...

A tua vida não passou, estás é a viver uma segunda vida, muito mais rica do ponto de vista emocional, de dádiva, do sentido dos outros e de ti. O teu blog está cada vez melhor.
Bjs da tua colega que recebeu o chá alemão. E a agenda de 2009, nem se fala da sua utilidade.

carla disse...

Pense que cada dia será sempre "o primeiro dia do resto da sua vida" (já dizia o poeta), longa e cheia de sabedoria. Aos seus netos vai ter muito que contar e ensinamentos para deixar. Está no bom caminho a pensar racionalmente e não emocionalmente. BEIJOS GRANDES.

sandra disse...

Querida directora, emoção versus razão é a luta com que todos nós nos deparamos. O que é melhor? Não sei. Às vezes apetece-me render-me às emoções, mas isso faria com que batesse em uns e outros que se cruzam comigo nesta vida :). Outras vezes julgo que a razão é que é! É difícil! Se para mim o é, não imagino a turbulência que deves sentir dentro da tua cabeça e do teu coração. Este foi o teu último tratamento. Espero sinceramente que as próximas etapas sejam mais fáceis. Tenho fé e acredito nisso. Bjs muito grandes. FORÇA. xau-xau, até amanhã, até amanhã

Anónimo disse...
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Fipas disse...

Creio que o racional é um meio de proteger os estragos que o emocional faz quando se descontrola, ou quando nos magoamos muito por estarmos muito sensíveis. É uma protecção. É verdade que nos deparamos no dia a dia com essa luta, a luta pelo equilíbrio entre os dois lados.
Se uma bomba caiu no teu emocional, cabe ao racional equilibrar, apanhar os cacos, colocar as peças no lugar certo para que o emocional se recomponha e te dê o que tem de melhor para te dar... sentires em cada poro o amor e amizade que te rodeia, cada cheiro de uma flor ocasional, o som do passarinho que descansa no teu banco de jardim, um abraço da tua filha... Nem imagino o que é estar no teu lugar, mas sei de uma coisa: Sei que vais superar isto! Um grande bem-haja!

Anónimo disse...

Hoje vais dormir direitinha vais ver... e amanhã tudo há-de correr bem.
Hoje já falei muito contigo... :))
Vais ver que o plano do destino há-de ser bom...
Faço das palavras da Filipa as minhas.
Beijo grande mana Grande
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